A Igreja do Terço entre 8.07.1713 e 20.11.1843


Conferência em 19.02.2013 Cónego Francisco Senra 

A Igreja Beneditina Nossa Senhora do Terço em Barcelos na História

Conferencia apresentada na Igreja de Nossa Senhora do Terço em Barcelos (19-02-2013)

por ocasião das comemorações do seu III centenário (1713-2013)

Cónego Francisco Senra Coelho*

 

Exmo. e Revmo. Senhor Prior de Barcelos Mons. Abílio Fernando Alves Cardoso

Exmo. Senhor Vereador da Cultura da Camara Municipal de Barcelos

Exmo. Senhor Presidente da Confraria Nossa Senhora do Terço de Barcelos

 

Minhas Senhoras e meus Senhores

Introdução

Em 1640, o movimento restaurador da independência de Portugal nãodispunha de um exército moderno e as fortificações que o país possuía eram escassas, sobretudo ao longo das fronteiras terrestres. Portugal viu os seus melhores e mais bravos generais partirem para as várias frentes que simultaneamente a Espanha sustentava na Guerra dos Trinta Anos, prolongada naquele reino até 1659 e na questão da Catalunha, sustentada até 1652. Sem fortificações e sem exército capaz, Portugal via-se também sem coudelarias, que de modo lento e progressivo se foram extinguindo, inclusive com o apoio da ocupação espanhola.

Tudo isto explica o facto da guerra da restauração se limitar a operações fronteiriças geralmente de pequena envergadura, baseadas sobretudo no ataque a povoações desprotegidas, à captura de gados, ao corte das árvores e à queimada de searas.

Nestas guerras os espanhóis atuavam normalmente como invasores e os portugueses como defensores. Algumas batalhas de campo deram a vitória aos portugueses, mas regra geral estas guerras tiveram as suas vitórias e derrotas de ambos os lados, ainda que algumas batalhas de campo tenham dado nítida vitória aos portugueses, como os casos do Montijo (1644) e Linhas de Elvas (1659)1

Fruto destas guerras de fronteira, as monjas beneditinas de Nossa Senhora da Conceição de Monção «foram obrigadas a abandonar o mosteiro por este se encontrar numa zona de confronto armado entre Portugal e Espanha, refugiando-se em Braga.

Em 1704, o mosteiro foi demolido e as religiosas foram transferidas para o novo Mosteiro de São Bento em Barcelos.»2

É nosso propósito compartilhar com todos os presentes, os conhecimentos históricos acerca do novo Mosteiro de São Bento em Barcelos, ao celebrarmos os 300 anos desta preciosa e monumental Igreja de Nossa Senhora do Terço (1713-2013), na nossa sempre bela e histórica cidade de Barcelos.

Faremos a nossa apresentação em cinco capítulos a desenvolver com brevidade e concisão:

1- Do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Monção ao Mosteiro das Freiras de São Bento em Barcelos.

2- As Gertrudinas Adoradoras e as Beneditinas de Barcelos.

3- Uma personalidade incontornável na história do mosteiro das Beneditinas de Barcelos: O Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles, (10/03/1704 - 04/09/1728).

4- O contexto histórico de três datas: 20 de Janeiro de 1704; 8 a 11 de Julho de 1713 e 20 de Novembro de 1843.

5- Desafios espirituais e interpelações pastorais.

1. Do Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Monção ao Mosteiro das Freiras d  e São Bento em Barcelos.

A recente obra de 702 páginas, publicada sob a direção do Professor Doutor José Eduardo Franco, intitulada «O Esplendor da Austeridade», apresenta «Os mosteiros das Beneditinas, sujeitos à autoridade diocesana, que em Portugal tiveram maior importância»3. O autor enumera estes mosteiros a partir dum critério cronológico ou seja, parte dos mais recentes para os mais antigos; assim, o primeiro a ser apresentado, por ter sido a ultima fundação beneditina feminina, é o Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição em Monção (1650-1704).4

Se conferirmos o Guia Histórico dirigido por Bernardo Vasconcelos e Sousa intitulado «Ordens Religiosas Portuguesas», verificamos que este mosteiro foi fundado por Paio Gomes Pereira e foi inicialmente utilizado por freiras dominicanas. Segundo esta consulta bibliográfica ao Guia Histórico, percebemos que há dificuldades na datação, pois afirma: «Em data que se desconhece adotou a observância beneditina.»5

É sempre de referir a inesgotável fonte histórica que Fortunato de Almeida nos legou através da sua «História da Igreja em Portugal»6. Aí encontramos referido que «O mosteiro das religiosas de São Bento de Monção foi fundado em 1550 por Paio Gomes Pereira, varão nobre daquela vila, o qual primeiro o destinara à ordem de S. Domingos» A fonte histórica em que se apoia Fortunato de Almeida é a credível «Beneditina Lusitana».7

Na sua monografia, o Padre Manuel Avelino Ferreira apresenta possíveis datas para a fundação do convento das Beneditinas de Moção. A primeira hipótese indica que a fundação teve lugar em 1150 segundo os pareceres do Padre Domingos Joaquim Pereira na sua obra «Memorial Histórica»8 (1867-1872); de Frei João de J. Tomás, na memória «Beneditina Lusitânia»9 e do Padre António da Costa Carvalho, na sua «Corografia Portuguesa»10 (1702).

No referente à «Corografia Portuguesa», parece tratar-se de um erro da referida monografia, pois esta obra diz textualmente que em Monção existiam dois mosteiros de freiras, «o de São Bento, que fundou um nobre Barão chamado Paio Gomes Pereira, pelos anos 1550, em que residem cem religiosas e mais de sessenta criadas; e o Mosteiro de freiras de São Francisco (…)». O mesmo erro interpretativo surge em relação à obra Beneditina Lusitânia, que Fortunato de Almeida invocou em favor da data 1550 como fundação do Mosteiro de Monção.

A segunda hipótese, proposta pelo Padre Manuel Avelino Ferreira, aponta como data fundacional o ano de 1550. Esta proposta cronológica é difundida pelo Padre António da Costa Carvalho, na publicação «Silva Minhota»11, a qual é assumida de facto como data consensual.

Quanto ao encerramento do mosteiro das Beneditinas de Monção, o Padre Miguel de Oliveira diz-nos que: «O último período da Idade Média oferece, em todos os países, um quadro de decadência das ordens religiosas; para ela contribuíram, além do estado geral da sociedade, o Cisma do Ocidente e a riqueza de alguns conventos. No século XVI, começou a renovar-se a vida religiosa com a fundação de institutos em que predominava a ideia de apostolado (…). Em 1622, havia em Portugal, (…) 450 conventos de homens e mulheres. Em 1763, já depois da expulsão dos jesuítas, João Baptista de CASTRO contava 538 casas religiosas, 407 conventos e hospícios de frades e 131 mosteiros de freiras. Em 1826, segundo o Cardeal SARAIVA, existiam no continente 577 conventos e casas de religiosos, com uma população de 12 980 pessoas, sendo 7000 nos conventos de frades e 5980 nos de freiras; todavia, haveria quando muito 3500 religiosos de ambos os sexos ligados por votos monásticos; o resto eram criados e gente de serviço. (…) A reforma das Ordens monásticas, decretada pelo Concílio de Trento, não chegou a ter em Portugal a conveniente execução. Nas cortes de 1641, queixam-se os bispos dos obstáculos que encontram para a visitação dos mosteiros. Nas de 1697, os representantes do Porto, considerando que “o estado regular, como hoje se toma por vida e não por espírito, padece muita relaxação”, reclamam providências “para que tornem as religiões à sua primeira observância, e guardem os religiosos a perfeição evangélica, que professam, segundo os seus institutos”. Seria então necessário suprimir alguns institutos, reduzir o número de conventos, fazer rigorosa seleção do pessoal e fiscalizar efetivamente a vida das religiões»12.

Apesar destas realidades descritas nesta ampla citação, o encerramento do Mosteiro Beneditino de Monção deveu-se à interminável guerra da independência, a qual levou o Rei D. Pedro II (1683-1706) a restaurar a praça de Monção, por isso ordenou a demolição imediata do Mosteiro das Beneditinas de Monção. Esta foi a causa pela qual as Beneditinas foram trazidas de Monção para o Seminário de São Pedro, no campo de São Tiago em Braga. Neste caso, não se trata de um encerramento e transferência por motivos disciplinares ou morais, mas devido a questões de segurança de pessoas e bens.

Quanto à identidade do fundador do mosteiro das religiosas de São Bento em Monção, Paio Gomes Pereira, sabemos que: «de Brites Pereira e seu marido, nasceram António de Caldas Pereira e Castro (…) e ainda mais três filhos, Paio Gomes Pereira, Rui Lobato Pereira e Gomes Pereira (…). Na carta de Brasão passada ao neto da Senhorinha Ruy Gomes do Logo, data de 27 de janeiro de 1542, (…) se diz genro e neto paterno de Paio Gomes Pereira13. Em forma conclusiva, podemos sintetizar que «Paio Gomes Pereira, fidalgo do séc. XVI, natural da vila de Monção, fundou em 1550 o mosteiro das religiosas de São Bento de Monção, o qual primeiramente destinara à Ordem de São Domingos.»14

Pelos motivos aludidos e a pedido do rei, o Arcebispo Primaz recebeu as Irmãs em Braga, oferecendo-lhes alojamento no Seminário de S. Pedro, no Campo da Vinha.

O restante pessoal e respetivos serviços foram mudados para o paço arquiepiscopal a 20 de janeiro de 1704. As Irmãs beneditinas foram chegando entre o dia 25 de janeiro e 1 de fevereiro15.

A permanência das Irmãs na cidade de Braga revestiu-se de um carater provisório, pois previa-se a construção de um mosteiro apropriado para as acolher definitivamente. A cidade escolhida para a construção do novo mosteiro para as irmãs vindas de Monção foi Barcelos, na transição do reinado de D. Pedro II (1683 – 1706) para o reinado de D. João V (1706-1750). Coube ao Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles (1704-1728) cuidar da construção do mosteiro com a sua Igreja.

Consta tradicionalmente em Barcelos que o terreno para o mosteiro foi doado por uma família barcelense residente em Coimbra e D. Rodrigo destinou essa propriedade doada nos arrabaldes norte da vila de Barcelos para a construção do novo mosteiro Beneditino16.

A 8 de setembro de 1704, o povo do concelho veio entregar donativos à Camara de Barcelos para a construção do novo mosteiro. Pode-se confirmar esta doação no Livro de Arquivo da Camara Municipal de Barcelos, onde se regista «a descrição da oferta coletiva do povo, no montante de 12 mil cruzados, para edificação do convento das freiras vindas de Monção e que estão em Braga.»17

A descrição feita pela «Corografia Portuguesa»18 apresenta no ano de 1706 em Barcelos as seguintes igrejas, capelas ou ermidas «(…) Nossa senhora da Ponte, cercada de varandas de pedra, Santo António, S. Braz, S. Miguel o Anjo, Santiago, onde se diz missa aos presos todos os domingos e dias santos e no sitio que chamam a Magdalena, uma Ermida de S. Bento e outra de S. Joseph da confraria dos carpinteiros». Se nos situarmos no campo das freiras, constatamos que ainda não há referências ao mosteiro das freiras beneditinas de Barcelos, elemento confirmativo das cronologias anteriormente apresentadas; «…no Campo da Feira, que lhe fica para norte, tem um Convento dedicado a S. Francisco, de Capuchos Piedosos, que se principiou com esmolas do povo no ano de 1649 e estas ermidas, Nossa Senhora da Conceição, o Espirito santo e o Bom Jesus onde está uma devota imagem do Cristo Senhor Nosso com a cruz às costas, (que trouxe de Flandres um mercador natural desta Vila), a qual milagrosamente entrou na dita Ermida, por ser muito grande e a porta pequena.» Nesta descrição ainda não há qualquer alusão ao mosteiro das beneditas em Barcelos, nem sequer às suas obras…

De facto a primeira pedra do mosteiro foi levantada a 14 de agosto de 1707 e a sua inauguração aconteceu a 11 de julho de 1713. No dia 8 de julho de 1713 chegaram a Barcelos as religiosas Beneditinas vindas de Braga. Eram mais de cem Irmãs.

Por esses dias decorreu um solene tríduo de orações e “lausperene” a fim de preparar a inauguração marcada para 11 de julho, festa de São Bento. Por esse motivo o Arcebispo de Braga permaneceu três dias em Barcelos.

As freiras foram recebidas com muito carinho e a população brindou-as com várias e valiosas prendas. Para elas foi construído propositadamente o novo convento com esta Igreja, tudo no valor de cem mil cruzados ou quarenta contos de reis. Muito contribuiu o povo barcelense que para ajudar à construção do mosteiro viu a autarquia local lançar um imposto sobre sisas.

2. As Gertrudinas Adoradoras e as Beneditinas de Barcelos

Em Helfta, recolheu-se Matilde de Magdeburgo (1207-1283), a qual depois de mais de trinta anos de vida penitente como beguina, concluiu aí os seus dias como cisterciense.

A coleção «A Torrente da Luz da Divindade» é a primeira grande obra mística escrita em alemão. Nesta obra e através de imagens audazes, Matilde contempla o nascimento da sua alma, para lá do tempo e do espaço. A comunhão com Deus Pai é o elemento vital, a verdadeira natureza da alma. Cristo é o esposo a que se destina a alma, a quem ela se entrega sem reservas e o Espirito Santo é contemplado como «a emanação exuberante do Pai e do Filho», «a fonte bem-aventurada da qual jorra o Amor». A alma que vive na torrente da luz e da graça divina, pertence à cristandade e ao mundo, vive e sofre pelo mundo e para a cristandade. 19

Em Helfta, estiveram sobre a influência de Santa Matilde de Magdeburgo, Matilde Hackeborn (1241-1299) e Gertrudes, a Grande (1256-1302). Importa-nos conhecer Santa Gertrudes, pois as freiras de Barcelos são Beneditinas seguidoras da espiritualidade de Santa Gertrudes.

Em 1256, nasceu em Helfta, muito próximo de Eisleben na Saxónia, Santa Gertrudes, que aos 25 anos foi beneficiada com uma primeira revelação e no fim da vida recebeu o dom dos estigmas. Faleceu entre 1302 e 1303 e o Papa Clemente XIII (1758-1769) incluiu-a no Calendário Romano.

As suas primeiras obras, Arautos da Bondade Divina e Sete Exercícios foram editados no século XVI em excelente prosa latina pelo cartuxo João Lamperge. Estamos perante um dos grandes nomes da literatura mística universal, cujas obras estão traduzidas em diversas línguas. Salienta-se na sua obra o lugar do ciclo litúrgico e da devoção ao Coração de Jesus; enquadra-se na corrente denominada «mística nupcial».

Gertrudes participou na vida monástica desde os cinco anos e aí foi iniciada na cultura universal e clássica, estudando latim, filosofia, teologia e música. A sua inteligência vivaz comprazia-se no estudo e na leitura de Virgílio e Cícero, na filosofia de Aristóteles e no estudo das belezas do mundo natural.

Fruto de uma aparição, a 27 de janeiro de 1281, converteu-se e dedicou-se exclusivamente a Deus. Os santos chamaram a este momento “a sua conversão”. A partir desse dia o livro de Santa Gertrudes passou a ser a Sagrada Escritura e os Comentários dos Santos Padres e Teólogos, sobretudo Santo Agostinho, São Gregório Magno, São Bernardo e Hugo de São Caro.

Como afirma o Padre José Leite20, «Os seus sofrimentos físicos lavraram-lhe a alma e obtiveram-lhe grande domínio sobre o amor-próprio e a impaciência natural.

Assim preparou o coração para grandes comunicações e para trono da divindade. A arte cristã representa a Santa com o coração abrasado fora do peito, e dentro do peito o Menino Jesus».

Santa Gertrudes experimentava habitualmente momentos interiores de paz e de luz. Mais do que sofredor, Jesus no seu coração revelou-se como mistério de graça e de amor. Santa Gertrudes descreve o Coração Divino, não com a Coroa de Espinhos e a Cruz, nem se sente chamada à vocação especial de vítima para a expiação dos pecados do mundo; ela descansa no Coração de Cristo como o Apostolo São João. No coração do Seu Senhor, ela encontra a purificação, o repouso e a segurança que todo o ser humano procura.

Santa Gertrudes foi escolhida pelo Senhor para conhecer e testemunhar as complacências divinas, que depois Santa Margarida Maria Alacoque comprovou.

Ambas penetraram no amor íntimo de Jesus. Santa Gertrudes é a Santa da Humanidade de Cristo e a “teóloga” do Sagrado Coração, «Ela concebia o amor a Jesus, não tanto como devoção, quanto como maior compreensão do grande e integro mistério de Cristo, vivo e palpitante no meio da Igreja pela liturgia católica.» (cf. op. cit. pág. 313) Foi através da Liturgia, sobretudo da Eucaristia, que Santa Gertrudes por meio do Mistério da Encarnação se encontrou na confiança e na alegria com a Misericórdia de Deus. Foi sábia conselheira da Comunhão Eucarística frequente, sempre a partir das disposições e dos critérios evangélicos.

Na região minhota, juntamente com o convento de Vairão (Vila do Conde), as freiras de Barcelos eram Gertrudinas Adoradoras, as quais marcavam a sua piedade quotidiana ao ritmo da recitação da Liturgia das Horas e da Adoração ao Santíssimo Sacramento. Esta componente de sua espiritualidade refletiu-se na estrutura do próprio convento e da Igreja, nomeadamente na utilização de um oratório para a exposição do Santíssimo Sacramento, ainda existente.

Toda a vida do mosteiro se centrava na adoração, no silêncio contemplativo, na mística esponsal e na vivência do ciclo litúrgico anual. A relação com o Amor Misericordioso de Cristo, expresso no seu coração, fonte de alegria e paz, devia irradiar na caridade e no acolhimento que este mosteiro praticou com regularidade e descrição.

3. Uma personalidade incontornável na história do convento das Beneditinas de Barcelos: O Arcebispo de Braga D. Rodrigo de Moura Teles

D. Rodrigo de Moura Teles era bispo da Guarda, quando em 10 de março de 1703 foi transferido para o arcebispado de Braga, do qual tomou posse por procuração a 5 de junho de 1704. Entrou em Braga no dia 4 de setembro do mesmo ano e a 22 de dezembro recebeu na catedral o pálio das mãos do seu bispo coadjuntor, D. António Botado.

No seu pontificado D. Rodrigo de Moura Teles promoveu a reforma do clero e dos fiéis. Em 1705 iniciou as visitas pastorais à arquidiocese nas quais se demorou dois anos. A nível litúrgico e patrimonial, reviu e mandou imprimir o breviário bracarense.

Reedificou a capela de S. Geraldo na Sé; celebrou a trasladação das relíquias do Santo e ordenou que se introduzisse no calendário o referido dia da festa da mesma trasladação.

Como descreve a «Serie Cronológica dos Prelados de Braga»21, D. Rodrigo de Moura Teles «fez de novo as duas torres, aumentando-as com três sinos; reformou os órgãos; fez quatro altares; estocou o corpo da Sé, adornando-a com azulejos, pinturas, etc.; pintou e dourou as cadeiras da capela-mor e coro alto; fez a casa do cabido, deu para a fábrica, além de preciosas alfaias, um pontifical de ouro, que lhe custou mais de doze mil cruzados. No paço fez a capela do Sacramento, a casa da relação com a sua antessala, a casa para o seu provisor com o prospeto da galeria, e o chafariz da mesma galeria. São também obras suas a Capela de São Sebastião, o recolhimento das convertidas, o convento das religiosas da Penha, com chafariz no claustro e água que nele meteu, dando-lhes além disso quatro mil cruzados para algum desempenho.

Reedificou a capela de Guadalupe; fez o aljube da cidade, de Valença e o da Torre de Moncorvo. Sobretudo mostra a sua gradeza de ânimo, a magnífica e maravilhosa obra do Senhor do Monte, em que gastou mais de sessenta mil cruzados»22.

Relativamente a Barcelos, foi durante o seu pontificado, que em 1705, se iniciaram as obras do Templo do Senhor da Cruz e em 1707 se deu início à construção do convento das Beneditinas e da Igreja da Senhora da Aparecida em Balugães, que se concluiu em 1720. Por ordem de D. João V (1706-1750), foi também o fundador e administrador da construção do mosteiro das mongas de S. Bento em Barcelos, como dissemos. No dia 8 de julho de 1713, vieram de Braga mais de cem Beneditinas.23 As freiras foram transportadas em liteiras puxadas por cavalos num vistoso séquito e acompanhadas pelos notáveis da cidade, pelas autoridades e pelo Arcebispo Primaz.

As monjas saíram de Braga às 5 da manhã, depois de terem celebrado as funções solenes a partir das 2 horas da manhã. Chegadas a Barcelos, pelas 11 horas, integraram um solene cortejo, a pé, desde o Templo do Senhor da Cruz até ao Campo dos Touros24 para onde dava a porta principal do mosteiro.

Presidia ao cortejo a abadessa, D. Francisca de Santo António, de báculo em mão; seguia-a o arcebispo, as autoridades distritais e concelhias e muita gente. O prelado permaneceu durante três dias em Barcelos, instalando-se na casa solarenga da Quinta da Bagoeira. Durante esses dias, o arcebispo ofereceu gentilmente às religiosas a alimentação, mantendo-se desta forma em férias festivas todo o convento.

A fim de preparar a inauguração do convento, marcada para a festa de São Bento a 11 de julho, houve solene tríduo de sermões e adoração eucarística de ação de graças. As relíquias dos Santos Beneditinos também foram transladadas para a igreja conventual, em solene procissão e com muita gente vinda das muitas e diversas localidades das redondezas, a qual deu a volta ao templo do Senhor da Cruz.

4. O Contexto Histórico de Três Datas (20 de janeiro de 1704, 8 a 11 de junho de 1713 e 20 de novembro de 1843.

A data de 20 de janeiro de 1704 e o seu contexto histórico

20 de janeiro de 1704 é a data indicada por diversos historiadores para a chegada a Braga de todo o pessoal doméstico e respetivos serviços do mosteiro das Clarissas de Monção. Segundo Leonídio de Abreu, chegaram e foram acolhidas no paço arquiepiscopal junto à Sé Primacial. As primeiras monjas vindas de Monção chegaram passados cinco dias e as últimas chegaram dia 1 de fevereiro. Foi-lhe oferecido alojamento no Seminário de São Pedro, então situado no campo da vinha.

Conforme refere o Dicionário de História Religiosa de Portugal25 «Quando se agregaram em províncias (século XIV) ou congregações (século XVI) mais ou menos centralizadas, as casas femininas ficaram á margem dessas mudanças, sujeitas à jurisdição do ordinário, sem laços que as ligassem aos monges a não ser a regra e a espiritualidade comuns. Por ocasião da reforma tridentina em meados do século XVI, muitos mosteiros beneditinos femininos já haviam desaparecido (cerca de 10) e outros floresceram depois. Entre os desaparecidos, alguns foram secularizados, outros doados a outras ordens, enquanto outros, dispersos pela província, foram reunidos em novas fundações citadinas.» Segundo Maria de Pilar S. A. Vieira, o mosteiro de S. Bento de Barcelos (1713-1843) foi um dos que apareceu com sucesso, fruto deste contexto tradicional tridentino de reforma de vida religiosa. Ora como já dissemos, não foi esse o motivo da transferência do mosteiro das Beneditinas de Monção para Barcelos. O autêntico motivo reside na localização do mosteiro, no palco das guerras da restauração.

Esta constatação histórica que assumimos desde o início desta comunicação em clara discordância com as afirmações genéricas que colocam o encerramento do convento de N. Sra. da Conceição de Monção no contexto da reforma pós-tridentina, não surge apenas como um pormenor de somenos importância histórica. É que os acontecimentos, tal qual nos aparecem nas fontes históricas consultadas, indiciam uma comunidade observante e saudável, transferida para Barcelos com breve e transitória estadia em Braga. Parece não se tratar de um mosteiro decadente e desregrado, arruinado espiritualmente e materialmente falido, para o qual fosse preferível a extinção canónica ou anexação e transferência das monjas existentes e “aproveitáveis” para outro mosteiro.

Concluímos que efetivamente durante o seculo XVII as monjas do mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Monção «foram obrigados a abandonar o seu mosteiro por este se encontrar numa zona de confrontos armados entre Portugal e Espanha, refugiando-se em Braga»26. Em 1704 o mosteiro de Monção foi demolido, não se conhecendo na atualidade qualquer vestígio do conjunto monástico27. Esta constatação arqueológica ajuda a perceber que o Mosteiro de Nossa Senhora da Conceição de Monção foi integralmente demolido só por motivos de estratégia militar a fim de possibilitar a melhor defesa das fronteiras de Portugal e que só por este motivo toda a sua comunidade foi definitivamente instalada num novo mosteiro construído propositadamente para substituir a sua anterior propriedade. Assim o mosteiro de Barcelos surge como uma restituição devida por justiça a uma comunidade digna e séria na observância do seu carisma religioso.

A data de 8 A 11 de julho de 1713 e o seu enquadramento histórico

Como já referimos, no dia 8 de julho de 1713, chegaram a Barcelos mais de 100 freiras beneditinas. Eram exatamente 67 monjas professas de coro, 3 noviças, 6 educandas e 50 religiosas leigas, totalizando uma comunidade de 126 pessoas. A comunidade partiu de Braga às 5 horas da Manhã, depois de 2 horas de oração e chegou a Barcelos às 11 horas. Como também já referimos, a inauguração e Bênção Solene do mosteiro e sua igreja, aconteceu no dia 11 de julho, festa litúrgica de São Bento, sob a presidência do Arcebispo de Braga, D. Rodrigo de Moura Teles.

Analisando o contexto histórico destes acontecimentos, registamos que desde meados do século XVII a Europa vivia o esplendor absolutista, no qual o Estado se confundia com o soberano, conforme a emblemática frase de Luís XIV (1638-1715). «J’ État c’est moi».

Na perspetiva absolutista, a Igreja aparecia reduzida a funções meramente decorativas e exaltantes do poder real. Eram os reis que mandavam na Igreja, dispondo dos benefícios eclesiásticos segundo as suas conveniências pessoais e familiares. Para justificar estas atitudes totalitárias, as cortes fomentaram e apoiaram diversas doutrinas regalistas e estatistas, a partir dos quais o poder era marginalizado da vida da Igreja nas diversas nações e a sua ação vigiada e controlada pelos diversos governos, através do mecanismo sensório do «Beneplácito Régio».

Na França de Luís XIV, a ingerência corporizou-se nas teorias galicanas, apoiadas por vários bispos, entre as quais o célebre Bossuet (1627-1704)28. Em 1682, a Assembleia do Clero de França apresentou a “Declaração do Clero Galicano sobre a jurisdição eclesiástica”, a qual negava ao papa todo o direito sobre os assuntos temporais de França, subordinando a sua autoridade espiritual às decisões conciliares e ao consentimento da Igreja.

O regalismo tinha diversas expressões. O princípio dominante baseava-se na conceção que o rei é a autoridade suprema sobre a Igreja. A nível parlamentar, o regalismo considera a Igreja como uma instituição estatal; como consequência as leis eclesiásticas deviam receber a aprovação do parlamento. O regalismo, quando assumido pelos bispos, reivindicava direitos próprios e independentes do papa para os prelados governarem as dioceses, apelando aos primeiros séculos do cristianismo para considerarem somente o bispo de Roma «primus inter pares» em relação aos outros bispos. Assim, o regalismo esvaziava a relação das dioceses com a Santa Sé, para valorizar os poderes dos bispos e da coroa.

A exemplo da França, quase todos os países da Europa elaboraram teorias regalistas, nomeadamente Portugal.

Estas datas de 8 a 11 de julho de 1713 situam-se no reinado de D. João V e no pontificado de Clemente XI (1700-1721). Surgem no contexto das novas mentalidades europeias, que fruto da situação económica favorável, cultivavam o luxo e a pompa conforme as possibilidades de cada corte, inclusivamente nos seus rituais religiosos.

Em Portugal, foi no reinado de D. Pedro II e de seu filho D. João V que se assistiu ao crescente esforço de reconquistar e qualificar a influência e o prestígio que no passado Portugal tivera perante a Santa Sé. A valorização das relações com Roma serviu para promover o poder e o prestígio da coroa portuguesa a nível interno e sobretudo no plano internacional. O prestígio da instituição real e da pessoa do próprio rei incentivou a crescente afirmação da soberania portuguesa perante o poder pontifício e sobre a Igreja nacional.

A cúria romana procurou com esta aproximação obter dividendos na fidelidade de Portugal ao magistério do sucessor de Pedro, sobretudo nas questões colocadas pelo jansenismo e galicanismo e também no auxílio para a defesa dos ataques turcos.

Fruto destas relações retributivas, surgiu a frequente procura de títulos e privilégios para a Igreja portuguesa e seu clero, bem como para os próprios monarcas que desde 23 de dezembro de 1748 passaram a reinar na “Nação Fidelíssima”.

Só numa mentalidade regalista, se pode compreender as diversas decisões tomadas unilateralmente pela coroa e executadas através do Arcebispo de Braga: destruição do convento de Nossa Senhora da Conceição em Monção, permanência provisória das irmãs em Braga, construção do novo mosteiro em Barcelos e transferência das beneditinas de Braga para Barcelos.

Duas realidades permanecem claras: A destruição do mosteiro de Monção aconteceu por motivos militares, a fim de se garantir a integridade territorial da pátria portuguesa e a construção do novo mosteiro de Barcelos foi assumida pela coroa portuguesa com a finalidade de ressarcir a Ordem Beneditina pelos grandes prejuízos causados pela destruição estratégica do mosteiro de Monção.

Assim, a construção do novo mosteiro de Barcelos é fruto da consciência de uma monarquia regalista de que se assume como “dona” da vida religiosa.

Significado do 20 de Novembro de 1843

Foi em 1834 que se deu o grande assalto às propriedades monásticas e conventuais. A 30 de Maio de 1834, foi publicado um decreto que extinguia em Portugal todas as ordens e seus domínios, incorporando nos cofres da Fazenda Nacional o montante da venda dos bens dos conventos, mosteiros, colégios, hospícios e todos os outros bens móveis e imóveis que fossem propriedades dos religiosos.

O património utilizado para o culto divino nos conventos e mosteiros deveria ser colocado à disposição dos bispos para ser distribuído pelas Igrejas mais necessitadas das dioceses. A cada um dos religiosos das casas extintas, seria pago pelo Tesouro Nacional uma pensão anual, enquanto não tivessem igual ou superior rendimento do novo benefício ou emprego público. Ficavam excluídos destes direitos os religiosos que tivessem seguido ou servido a causa de D. Miguel ou que de qualquer modo tivessem usufruído de benefícios ou empregos do governo miguelista.

A 20 de Junho de 1834, foi publicado um decreto que regulamentava as importâncias das pensões. Os religiosos patrimoniados professos receberiam mensalmente doze mil réis, ou dezoito mil réis se tivessem mais de sessenta anos. Os religiosos mendicantes professos receberiam mensalmente sete mil e duzentos réis, e aqueles que excedessem os sessenta anos de idade ou estivessem inválidos, dez mil e oitocentos réis. Para receber estas regalias, deviam os religiosos habilitar-se perante os perfeitos das províncias. A habilitação consistia em fazer prova de que não se inseriam nas exceções do Estado, decreto de 30 de Maio, ou seja, que não eram prómiguelistas.

As ordens militares foram equiparadas em tudo às determinações de 30 de Maio, isto por decreto próprio para as ordens militares, com data de 14 de Julho de 1834.

Somados, os conventos nacionais eram, na totalidade, trezentos e oitenta e oito. Se acrescentarmos ainda quarenta e nove hospitais de religiosos, temos quatrocentas e trinta e sete casas religiosas masculinas em Portugal. Das casas religiosas femininas, decidiu-se extinguir doze casas, bem como alguns hospitais, igrejas, capelas, ermidas e confrarias.

Na prática, aplicava-se aos conventos femininos a legislação de 5 de Agosto de 1833, que expulsou os noviços de todos os institutos e proibia a admissão de novos noviços. A Concordata de 1848, na rubrica «Conventos de Freiras» apontara para um futuro acordo entre o rei de Portugal e a Santa Sé sobre a futura reorganização dos mosteiros e conventos femininos, porém, estas disposições concordatárias foram esquecidas, ficando à mercê do despotismo real a eliminação dos conventos femininos e, sobretudo, a terrível morte dos noviciados.

Quanto ao produto da venda dos bens dos religiosos, concluímos que mais lucraram os particulares, partidários do partido político do reinado do que o Tesouro Nacional. Veja-se o que testemunhava a Revista Universal Lisbonense29: «Quando em Portugal se decretou a supressão das ordens religiosas, houve tanto vandalismo civilizacional e tanta indiferença para as coisas da arte e da história, tanto descaminho vergonhoso e infamante, que fora um longo, e eterno escrever, se quiséssemos comemorar os largos trechos desta dolorosa catástrofe. Páginas da história nacional foram rasgadas; quadros de grandes e famosos pintores foram vendidos a estrangeiros, que, no seu reverso escreveriam – “comprados em terras de bárbaros […]”. Era nos arquivos dos conventos, nas suas ricas e preciosas livrarias, que se guardavam importantes documentos e preciosos manuscritos; e como tudo se tornasse um caos, como o individualismo ou, mais claramente, o egoísmo era o ídolo desse tempo, como os monumentos desabavam em ruínas, como os belos quadros eram vendidos na feira da ladra, os ricos livros e manuscritos tiveram a desgraça de ir parar às tendas de merceeiros e serem vendidos a peso por diminutíssimo preço.»30 De facto, uma das perdas mais deploráveis do assalto ao património dos religiosos foi a destruição de várias bibliotecas, com a perda de preciosidades e obras raras.

No referente ao cumprimento do pagamento das pensões acordadas com os religiosos espoliados, o atraso nos pagamentos chegou a atingir os cinquenta e um meses. A 15 de Julho de 1840, o deputado Dias de Azevedo observava nas Cortes que os religiosos espoliados dos seus bens se encontravam, agora, em grande provação e miséria, ao que respondeu o ministro do Governo que os culpados eram eles, pois não queriam ir paroquiar para o Ultramar e que a maior parte deles eram bem tratados em casas particulares como era o deputado bem tratado na sua própria casa.

A favor destes religiosos se pronunciou também em 1842 Alexandre Herculano, lamentando o triste espetáculo dado pela nação e ergueu a voz «a favor dos desgraçados egressos implorando pão para metade dos nossos sábios, dos nossos homens virtuosos, dos nossos sacerdotes, que morriam de fome e frio. O príncipe Félix Lichnowsky, que no mesmo ano visitou Portugal fala em “muitos milhares de frades arrojados repentinamente para o mundo com tão escassos meios de subsistência, que um egresso e um mendigo vieram a ser quase sinónimos”».31 Segundo Lichnowsky, «D. Pedro, dominado por um entusiasmo fanático em favor da revolução francesa de julho, não soube possuir nem moderação nem plano razoável nos seus primeiros decretos, e reuniu de modo singular na sua pessoa um libertador constitucional e um ditador absoluto».32

As Beneditinas de Barcelos também foram atingidas pelo decreto de lei de D. Pedro IV (1798-1834), de 28-30 de maio de 1834.33 Sobe-se que algumas delas se refugiaram em Espanha, outras foram acolhidas nas casas de familiares ou amigos. Em 1842, restavam no mosteiro duas irmãs, donde foram removidas oficialmente para o mosteiro beneditino de Viana do Castelo, onde outras irmãs esperavam pelo seu fim.

Assim o mosteiro de Barcelos ficou desocupado, podendo o Estado vende-lo.

Segundo um documento real datado de 1843, selado e assinado pela rainha D. Maria II (1834 – 1853), o leilão do mosteiro e seus bens realizou-se a 20 de novembro desse mesmo ano, «foi arrematador, Domingos Gomes Fernandes, através do seu procurador João Gonçalves Lobato, sendo-lhe entregue com a assistência do tribunal do thesouro, por quatrocentos, duzentos e cinquenta mil réis»34

Como percebemos, esta confiscação do mosteiro das beneditinas de Barcelos foi um roubo patrimonial perpetrado à Igreja, pois trata-se de um edifício construído pelo Estado em restituição do convento destruído em Monção, por motivos militares, como referimos.

Concluímos este quarto capítulo da conferência sobre o contexto histórico de três datas, tentando responder a uma questão: Porque passou a Igreja de S. Pedro, da ordem das beneditinas de Barcelos a chamar-se Igreja de Nossa Senhora do Terço?

O século XIX protagonizou uma série de destruições monumentais em Barcelos.

Uma destas destruições atingiu a capela do Espirito Santo, situada a norte do então Campo do Salvador, próxima do local onde está atualmente situado o monumento em homenagem ao bombeiro. Da capela do Espirito Santo foi transferida para a vizinha igreja das “Freiras de São Bento” a confraria de Nossa Senhora do Terço com a sua imagem. A 31 de Maio de 1846, o Estado doou a Igreja de S. Bento e seus pertences à confraria da Senhora do Terço, a qual passou a dar o título de sua padroeira, Nossa Senhora do Terço, à Igreja das “Freiras de São Bento” de Barcelos.

5. Desafios espirituais e interpelações pastorais

Para a nossa geração, fortemente marcada pelo individualismo, a experiência comunitária que se viveu neste mosteiro de beneditinas adoradoras pode parecer estranho e incompreensível. Para uma época que privilegia o ativismo e o sucesso imediato, a reclusão e o silêncio monástico não são geralmente valorizados e pertencem à categoria dos “exoterismos”.

Como será possível à maioria dos nossos jovens nascidos entre os anos 1990 e 2005, designados por “geração Z”, deixarem tudo para entrar para sempre no silêncio monástico? Trata-se de uma geração que se sente perdida, quando não tem contacto com telefones ou telemóveis e acesso a internet ou ao mundo virtual. Como deixar todos os excessos de informação e avanços tecnológicos para entrar no silêncio claustral?

Hoje, temos dificuldade em valorizar a vida contemplativa, que não sugere sucesso pessoal, operacionalidade, resolução imediata de problemas sociais e familiares, nem assume uma dinâmica predominantemente virada para o exterior.

Esta compreensão deturpada da vida contemplativa é assumida até por alguns católicos e já era sentida por João Paulo II, que escrevia na carta apostólica Sanctorum Altrix (11-07-1980) no XV centenário do nascimento de São Bento: «O modo exterior da vida monástica poderia criar a opinião de a vida beneditina garantir só a utilidade própria do monge que a professa e, por outro lado, de ela facilmente gerar a negligência contrária aos outros […]. Infelizmente, a vida que é vivida dentro das paredes do mosteiro na solidão e no silêncio é considerada deste modo, até por alguns que pertencem à comunidade eclesial.»35

O primeiro convite que sugere esta Igreja de Nossa Senhora do Terço é exatamente o silêncio e a contemplação do primado de Deus sobre a nossa vida.

Se nos sentarmos no interior desta igreja, somos movidos a olhar em frente para o Sacrário e para a tribuna da adoração no Santíssimo Sacramento e para o alto, para a riqueza pictórica do teto. As paredes são painéis abertos, repletos de testemunhos de vida e de catequese. Parar, escutar e contemplar é o convite que nos chega de imediato, pela força da beleza e pela sugestão que o púlpito apresenta: valorizemos a palavra de Deus, que uma vez aceite e rezada nos sugere o primado absoluto de Deus em nossas vidas.

Na opinião de Bento XVI, a fonte histórica mais importante para conhecermos a vida de São Bento é o segundo livro dos Diálogos de São Gregório Mango. Este Santo Papa, refere que «nascido na região de Núrsia, de nobre família, Bento foi enviado pelos pais a Roma, para lá estudar as Letras. Mas, vendo que muitos se deixavam arrastar no estudo para o caminho dos vícios, recolheu o pé que quase pusera nos umbrais do mundo, não acabasse depois por cair totalmente no fatal precipício.

Desprezou assim os estudos literários, abandonou a casa e os haveres paternos e, desejando somente agradar a Deus, procurou o hábito da vida monástica. Retirou-se, pois, do mundo, consciente e sabiamente ignorante.» E o beato João Paulo II acrescenta que, «praticando assim o que havia na tradição eclesial do Oriente e do Ocidente, o Santo de Núrcia chegou a considerar globalmente o homem, cuja dignidade, como pessoa, inculcou como sem igual.» A Igreja de Nossa Senhora do Terço, que guarda esta memória de S. Bento, permanece ao longo de três séculos como apelo ao silêncio que nos ajuda a encontrarmo-nos connosco mesmos e a contemplar o Mistério que somos, que levamos em nós e para o qual nos dirigimos.

Por isso é de primordial importância tudo fazer para que no coração da vida comercial de Barcelos, ao lado do campo da tradicional feira, esta Igreja permaneça sempre como lugar de silêncio e de oração, apresentando propostas e programas de iniciativas espirituais e de aprofundamento da Fé.

A lição de vida que as monjas beneditinas nos legaram leva-nos à oração eucarística, sobretudo à adoração. A valorização que as Gertrudinas Adoradoras faziam do Ciclo Litúrgico e da Liturgia das Horas inspira-nos a valorizar os diversos momentos litúrgicos do dia e do ano com a celebração das Horas Canónicas e com a celebração e adoração eucarística. A riqueza do púlpito convida-nos à valorização da escuta da palavra e da sua oração, a “Lectio Divina”.

A vida de S. Bento amplamente descrita na azulejaria e na pintura da Igreja e a invocação de Nossa Senhora do Terço colocam Nossa Senhora e São Bento como mestres da oração. A oração do terço com a contemplação dos seus mistérios será sempre estrada a percorrer pelos que buscam a paz de Deus. Em estilo de litania repetitiva, esta oração mariana introduz-nos na oração eterna dos Anjos e no louvor perene dos Santos: «Santo, Santo, Senhor Deus do universo, o céu e a terra proclamam a Vossa glória, Hossana nas alturas!»

Que esta Igreja, joia patrimonial permaneça como joia espiritual. Só assim será fiel à sua identidade e poderá ser instrumento valioso no diálogo cultural com o nosso tempo que a nova Evangelização propõe e a sociedade espera.

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 * Professor de História da Igreja no Instituto Superior de Teologia de Évora; membro do Centro de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa (UCP), da Academia Portuguesa de História, da Sociedade de Geografia de Lisboa e da Academia de Letras e Artes.

1 Cf. MARQUES, Oliveira A. H.; “História de Portugal”; Palos Editores- Lisboa; 1978, vol. I; 445-446. SARAIVA, José Hermano; Publicações Europa América; 2013; vol. III; 14-16.

2 SOUSA, Bernardo Vasconcelos e PINA, Isabel Castro; ANDRADE, Maria Filomena; SANTOS, Maria Leonor Ferraz de Oliveira Silva; “Ordens Religiosas em Portugal, Das Origens a Trento, Guia Histórico; Livros históricos; 2005, p.p.89.

3 Dir. FRANCO, José Eduardo; “O Esplendor da Austeridade”; Imprensa Nacional Casa da Moeda; p.p. 103

4 Idem

5 Ordens religiosas em Portugal, op. cit.; p.p. 89

6 ALMEIDA, Fortunato, História da Igreja em Portugal; Nova Edição preparada e dirigida por Damião Peres; Livraria Civilização Editora; Porto-Lisboa; Vol. II; p.p. 132

7 Beneditina Lusitana; Vol. II; p.p. 394-395.

8 PEREIRA, Domingos Joaquim, Memoria Histórica da Villa de Barcellos, Barcellinhos, Villa Nova de Famelicão, Vianna, Typ. De André J. Pereira & filho, 1867, cap. 25, pág. 99.

9 TOMÁS, Leão de Santo, Benedictina lusitana, Coimbra, Tipografia da Universidade, 1664.

10 COSTA, António Carvalho da, Corografia Portugueza, Lisboa, Officina Real Deslandesiana, 1701, Tomo I, pág. 211.

11 ABREU, Leonídio de; Silva Minhota; Braga; 1956; pág. 183-186.

12 OLIVEIRA, Miguel; «História Eclesiástica de Portugal»; Publicações Europa-América; 1994; pág. 210.

13 Cit. «Subsídios Biográficos e Genealógicos»; Alberto Coelho de Araújo Sousa Machado; 1980.

14 PEREIRA, Paio Gomes; in «Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira»; Lisboa, Rio de Janeiro; vol. XXI; pág. 179.

15 Cf. ABREU, Leonídio de, op. cit.

16 FERREIRA, Padre Manuel Avelino; «A Igreja Beneditina de Nossa Senhora do terço»; op. cit. Pág. 45.

17 Livro de Memórias, Arquivo da Camara Municipal de Barcelos. (ACMB). (170H) fl.135

18 COSTA, António Carvalho, «Corografia Portuguesa», op. cit, Tomo I, pág. 198.

19 Erumin J.S.E.R.L.O.W., «La Mística Alemana», Manual de História de la Iglisia, vol. IV, Belistica Herdeu, Barcelona, 1986, Pág. 602-604.

20 Cit. «Santos de Cada Dia»; 1985;Editorial Braga, (Ed. A.O., Vol. III, pág. 312-313)

21 CORREIA, José; «Serie cronológica dos Prelados conhecidos da Igreja de Braga desde a fundação da mesma Igreja até o presente tempo, precedida de uma breve notícia de Braga antiga e seguida de um catálogo dos bispos titulares, coadjutores do Arcebispado», Ed Real Imprensa da Universidade, Coimbra 1830, pág. 90, nº. 64.

22 FERREIRA, Padre Manuel Avelino; «A Igreja Beneditina de Nossa Senhora do Terço»; op. cit 25

23 67 Freiras professas do coro, 3 noviças, 6 educandas e 50 religiosas leigas, num total de 126.

24 O então «Campo de Touros» hoje surge na topografia da cidade de Barcelos como Praça 5 de outubro.

25 VIEIRA, Maria de Pilar S. A. “Beneditinas” in «Dicionário de História Religiosas de Portugal», Dir. Carlos Moreira Azevedo; pág. 89.

26 «Ordens Religiosas em Portugal, Das Origens a Trento – Guia Histórico», op. cit., pág. 89.

27 Idem.

28 Para além de bossuet, outros autores apoiaram o Galicanismo: PITHOV, Maistre Pierre; «Liberteés del’ Eglise Gallicaine», 1596. RICHOUR, Edmundo; «De Eclesiástica et Politica Potestate», 1612. DUPUG, «Provas das Liberdades Galicanas», 1639.

29 Cf. Revista Universal lisbonense; tomo III; 1843-1844; pág. 141.

30 ALMEIDA, Fortunato de; op. cit, vol. III, pág. 53

31 OLIVEIRA, Padre Miguel de ; «História Eclesiástica de Portugal»; op. cit, pág. 246.

32 «Portugal – recordações do ano 1842», Ed. Ática, Lisboa, 1946, pág. 68.

33 «Um dos decretos de 5 de agosto proibiu a admissão de noviços em qualquer Ordem e determinou que se despedissem das casas religiosas todos os indivíduos que tivessem em noviciado. Só vieram a encontrar-se definitivamente sob a alçada deste decreto os conventos de freiras. Durante dezenas de anos, o país assistiu ao agonizar da vida religiosa em casas cheias de tradições que remontavam, para algumas, ao princípio da Monarquia. A proibição dos votos não deixava preencher as vagas abertas pela morte. Por vezes, a redução do número forçava as sobreviventes a mudarem de casa. E o mosteiro fechava-se, ao desaparecer a última professa…» Cf. op. OLIVEIRA, Padre Miguel de; História Eclesiástica de Portugal; 1994; Publicações Europa- América, Lda. Mem Martins; pág.245.

34 FERREIRA, Padre Manuel Avelino; op. cit, pág. 61

35 FERREIRA, José André; “São Bento e o monaquismo ocidental” ; in Síntese, revista de atualidades eclesiais; jul-ago de 2013; nº 221